22 de nov de 2010

Para levar para uma ilha deserta...

(... ou simplesmente, pela vida afora)

Nunca tive uma resposta pronta para aquela pergunta, que já tive que responder mais de uma vez, “que livro você levaria para uma ilha deserta?” Claro que sempre me vinha um título a mente, talvez um da Clarice (Lispector) ou do Caio (F. Abreu), simplesmente porque são os meus favoritos e também porque me encanto e me encontro em suas palavras, às vezes pensava em Pessoa com seus vários heterônimos, ou ainda Neruda. E ainda tinha aqueles que sempre quis ler, e ainda quero, mas que a correria do dia-a-dia me impede: Dostoievski, Joyce, Rilke, As mil e uma noites ou a Odisséia.

Mas ao ter contato recentemente com a obra de Sophia de Mello Breyner Andresen, poeta portuguesa da segunda metade do século XX, teve um momento que eu parei e pensei: “esse é um livro pra se levar para uma ilha deserta”. Não só pela forte presença do mar na poesia de Sophia, mas, sobretudo, pela beleza e completude que ela, poeta e “maga do sentimento pânico e harmonioso do mundo”, dá às coisas simples: como uma janela aberta com vista para a praia e uma maçã vermelha poisada sobre uma mesa, ou, a visão de uma ilha grega.

Abaixo dois poemas, que entre tantos outros são meus favoritos dentro da lírica de Sophia.


Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo.

Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.


AUSÊNCIA

Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua

Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.



INSCRIÇÃO

Quando eu morrer voltarei para buscar
os instantes que não vivi junto do mar


Poemas retirados de: Andresen, Sophia de Mello Breyner. Poemas escolhidos. Org. Vilma Arêas. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.



2 comentários:

  1. Que poemas lindos, Henrique! Minha noite de segunda ficou completa, pq a pouco estive contemplando uma lua linda!
    Quero urgente beber as letras de Sophia!
    Bjs*

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  2. Carlos

    Pelo pouco que você mostrou já conseguimos perceber a profundidade dos livros de Sophia.

    Ótimo Blog, te seguirei a partir de hoje.

    Abs

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