24 de abr de 2011

Meio-amargo

A poeira assentou, eu pude então respirar profundamente, acender um incenso e meditar. Deu pra ouvir dignamente o CD da Bethânia e o novo da Tiê, e o do Pethit que há muito já não é novo, mas deu pra cantarolar todas as músicas com mais calma. Mas encontrando sossego e um pouco de calmaria que um feriado bem prolongado traz, me deparei com fantasmas e ausências que o dia-a-dia nos faz pensar superados. 

Mentira, eles continuam aqui. São como os papéis velhos que guardo na mesa, ou no criado-mudo. Mas estes, uma hora ou outra, jogo noventa e sete por cento fora, os outros três por cento eram importantes e então guardo-os. Aqueles também, uma hora ou outra diminuem, consideravelmente. Mas também sobram os três virgula setenta e cinco por cento que ficaram por muito tempo. 

Mas eu já fazia dessa(s) história(s) motivo de piada pro amigos, exemplo de que quando eu quero eu consigo, eu quis esquecer, superar, seguir em frente. E segui, mas aí numa tarde qualquer de um feriado prologado vendo o sol se pôr depois de um filme meio fofo, meio cult, eu me pego questionando a mim mesmo, a minha consciência, ou, sei lá as forças do universo: e se tivesse sido diferente? e se você tivesse agido diferente? e se eu tivesse agido diferente? onde estaríamos agora???

Talvez no mesmo lugar de hoje, você não sei nem onde nem com quem, e, eu apesar de muito feliz com tudo o que vem acontecendo desde que superei os nossos desencontros e abdicações, aqui curtindo a minha calmaria e solidão sob um sol de outono que mas parece de verão...

P.S.: os próximos dias estão novamente cheios e atribulados, felizmente. Dificilmente fantasmas do passado assombrarão meus dias, pois, não terei tempo para vê-los. E no próximo feriado prolongado, quem sabe, não haja mais espaços para solidão!?

23 de abr de 2011

Presságio


Esta manhã acordei com a tua voz
a murmurar em meu ouvido:
- Cuidado.
E porque não estavas aqui
o conselho tornou-se fardo
e levantei assustado,
(mas não estavas aqui),
segui o dia pensando no conselho que fez-se fardo
e de fardo, presságio.
No entanto, apesar de tudo o que aconteceu
nada foi pior que abrir os olhos e não te encontrar.

18 de abr de 2011

#eusougay


"Adriele Camacho de Almeida, 16 anos, foi encontrada morta na pequena cidade de Itarumã, Goiás, no último dia 6. O fazendeiro Cláudio Roberto de Assis, 36 anos, e seus dois filhos, um de 17 e outro de 13 anos, estão detidos e são acusados do assassinato. Segundo o delegado, o crime é de homofobia. Adriele era namorada da filha do fazendeiro que nunca admitiu o relacionamento das duas. E ainda que essa suspeita não se prove verdade, é preciso dizer algo.
Eu conhecia Adriele Camacho de Almeida. E você conhecia também. Porque Adriele somos nós. Assim, com sua morte, morremos um pouco. A menina que aos 16 anos foi, segundo testemunhas, ameaçada de morte e assassinada por namorar uma outra menina, é aquela carta de amor que você teve vergonha de entregar, é o sorriso discreto que veio depois daquele olhar cruzado, é o telefonema que não queríamos desligar. É cada vez mais difícil acreditar, mas tudo indica que Adriele foi vítima de um crime de ódio porque, vulnerável como todos nós, estava amando.
Sem conseguir entender mais nada depois de uma semana de “Bolsonaros”, me perguntei o que era possível ser feito. O que, se Adriele e tantos outros já morreram? Sim, porque estamos falando de um país que acaba de registrar um aumento de mais de 30% em assassinatos de homossexuais, entre gays, lésbicas e travestis.
E me ocorreu que, nessa ideia de que também morremos um pouco quando os nossos se vão, todos, eu, você, pais, filhos e amigos podemos e devemos ser gays. Porque a afirmação de ser gay já deixou de ser uma questão de orientação sexual.
Ser gay é uma questão de posicionamento e atitude diante desse mundo tão miseravelmente cheio de raiva.
Ser gay é ter o seu direito negado. É ser interrompido. Quantos de nós não nos reconhecemos assim?
Quero então compartilhar essa ideia com todos.
Sejamos gays.
Independente de idade, sexo, cor, religião e, sobretudo, independente de orientação sexual, é hora de passar a seguinte mensagem pra fora da janela: #EUSOUGAY..."


Independentemente de sexualidade, acho que a ideia vale o clique, e a divulgação. E, a ideia do projeto é simplesmente incrível!!!

17 de abr de 2011

Do silêncio

PSIiuuu...

pois estou em tempo de silêncio, calmaria, isolamento. é preciso saber a hora de sair um pouco de cena, ou ainda, de ficar apenas olhando a pista iluminada de um canto escuro de um lugar qualquer.
silêncio, pois preciso ouvi. e não é fácil ouvir o que não é audível. 
quero encontrar respostas, ouvir canções singelas, poemas cantados por sibilas. quero um pouco de sabedoria. 

(acabei lembrando do poema, da grande dama da sabedoria e da poesia, Sophia de Mello Breyner Andresen, e o reli, porque há momentos em que me socorro nas palavras de alguém, normalmente  as de Clarice ou Caio, mas hoje foi Sophia, e me fez um bem tão grande)


"Pensava também que, se conseguisse ficar completamente imóvel e muda em certos lugares mágicos do jardim, eu conseguiria ouvir um desses poemas que o próprio ar continha em si.
No fundo, toda a minha vida tentei escrever esse poema imanente. E aqueles momentos de silêncio no fundo do jardim ensinaram-me, muito tempo mais tarde, que não há poesia sem silêncio, sem que se tenha criado o vazio e a despersonalização.
Um dia em Epidauro – aproveitando o sossego deixado pelo horário do almoço dos turistas - coloquei-me no centro do teatro e disse em voz alta o princípio de um poema. E ouvi, no instante seguinte, lá no alto, a minha própria voz, livre, desligada de mim.
Tempos depois, escrevi estes três versos:

A voz sobe os últimos degraus
Oiço a palavra alada impessoal
Que reconheço por não ser já minha."



Trecho de: "Arte poética V" - Sophia de Mello Breyner Andresen. Publicado em Ilhas, 1989.

Leia ou ouça o poema completo aqui.

11 de abr de 2011

Elas dizem por mim

Às vezes tudo o que queremos, ou, pensamos em dizer já foi dito, escrito e musicado. Então, me recolho a minha insignificância e apenas ouço:
If you knew 
                  Nina Simone

If you knew how I missed you
You would not stay away today
Don't you know I need you
Stay here my dear with me
I need you here my darling
Together for a day a day
Together never parting
Just you just me my love
I can't go on without you
Your love is all I'm living for
I love all things about you
Your heart your soul my love
I need you here beside me
Forever and a day a day
I know whatever betides me
I love you I love you I do



Você não vale nada
                                Tiê

Você não vale nada, mas eu gosto de você
Tudo o que eu queria era saber por quê

Você não vale nada, mas eu gosto de você
Tudo o que eu queria era saber por quê

Você brincou comigo e bagunçou a minha vida
E esse sofrimento não tem explicação
Já fiz de quase tudo tentando te esquecer
Quem me dera morrer, não posso me acabar na mão

Seu sangue é de barata e sua boca é de vampiro
E um dia eu te tiro de vez do meu coração
Aí não mais te quero, amor não me dê ouvidos
Por favor me perdoe, estou morrendo...
Eu quero ver você sofrer só pra deixar de ser ruim
Eu vou fazer você chorar, se humilhar
Ficar correndo atrás de mim
Eu quero ver você sofrer só pra deixar de ser ruim
Eu vou fazer você chorar, se humilhar
Ficar correndo atrás de mim


Vambora
              Adriana Calcanhoto
Entre por essa porta agora
E diga que me adora
Você tem meia hora
Prá mudar a minha vida
Vem, vambora
Que o que você demora
É o que o tempo leva...
Ainda tem o seu perfume
Pela casa
Ainda tem você na sala
Porque meu coração dispara?
Quando tem o seu cheiro
Dentro de um livro
Dentro da noite veloz...
Ainda tem o seu perfume
Pela casa
Ainda tem você na sala
Porque meu coração dispara?
Quando tem o seu cheiro
Dentro de um livro
Na cinza das horas...


10 de abr de 2011

De dores... e a tentativa de ter esperanças


A vida, às vezes, é de uma ironia que me provoca medo. Eu tinha acordado decidido que aquele dia seria simplesmente excelente; a mistura de dor, raiva e um pouco de decepção que me atormentaram nos dia anteriores já tinha passado, já nem me lembrava das lágrimas, e o sol brilhando na janela parecia conspirar a favor. Doce ilusão. Não seria permitido ser feliz naquele dia. E bastou ligar a televisão pra saber que enquanto eu abria a janela e via um lindo sol brilhando crianças perdiam a suas vidas de uma forma covarde e brutal. Bastaram poucas horas para que a angústia no peito por pensar que aquilo poderia estar acontecendo com familiares, amigos, alunos, meus ou comigo mesmo, se transformasse numa espécie de dor-compartilhada com aqueles que perderão os seus, as suas crianças. E, pra perceber que o que muitas vezes julgo como um sofrimento, não passa de um simples percalço; e que às vezes dou importância demais a problemas que daqui alguns dias nem me lembrarei. Ao contrário de uma dúzia de famílias, e mais tantas outras pessoas, que para todo sempre carregaram um cicatriz, que dói mais que as visíveis, porque não se vê, não se toca, porque é ausência. Ausência brutal e inesperada. Na quinta não teve alegria, na sexta não teve festa, hoje já segui com a minha vida quase que normalmente, porque estou longe, em outra cidade, outro estado, porque não conhecia nenhumas das pessoas afetadas, mas e essas famílias, será que um dia dirão que a vida voltou ao normal? Porque não é normal, não é fácil, e não é lógico ver uma mãe ou um pai enterrar um filho. 

P.S. Minhas orações e pensamentos positivos para que essas famílias encontrem conforto e calmaria o mais breve possível, se possível. E que o tempo possa amenizar tudo. 



6 de abr de 2011

Megalomania



Eu preciso escrever mais.

Eu queria um pouco mais de verão, um pouco mais de sol,
um pouco mais de noite também.
Necessito, sempre, de mais amor.
Eu queria tempo para não fazer nada,
horas a mais no meu dia, ao menos pra desfazer a cara de cansaço.
Dois tempos para viver minha única vida não é má ideia.
Mas até lá, o que sobra é falta de tempo.
Sorry.

Eu preciso escrever mais, de qualquer forma!