17 de ago. de 2014



É preciso: 
virar a página
saltar do carro em movimento
fechar a porta e nunca mais voltar a bater
mudar os ares, 
de cidade,
de país
quem sabe de continente
queimar fotografias
redistribuir os presentes
formatar o HD
pintar as paredes do quarto
apagar as memórias
enterrar os seus restos
te mandar a puta que pariu
mas ainda não consegui dizer adeus

16 de ago. de 2014

entre rostos, bocas e corpos que sobrevivem na memória
há sempre aqueles que tornam esses momentos de silêncio e solidão
momentos de dúvidas hipotéticas de se:
tivessem ficado, correspondido, insistido.
Talvez a cama coubesse mais um
a cidade não seria tão grande para um solitário sozinho
a chuva fina que caí lá fora não serviria como desculpa para se
      [enfiar sob os cobertores e esquecer que afinal é sábado à noite
a angústia seria menor
talvez

nada é certo 
só a velha dor que insistiu em dar as caras! 

13 de jul. de 2014

dos encontros

eu sei que um dia, um desses encontros casuais não será mero acaso, flerte, sorte, atração; não importará passado, nem cicatrizes; nem nos preocuparemos com compromissos futuros, agenda, horários. porque a história será dividida entre o antes e o depois de tal encontro. e não colocaremos empecilhos para dar continuidade, buscar a presença constante, se fazer presente e abrir o coração por inteiro, se expor, perigosamente, aos olhos de outro alguém sem temor e sem vergonha. afinal, entre encontros e desencontros, em algum momento há de acontecer a união das metades cindidas pela ira dos deuses que andam errantes e errando mundo afora. 

18 de jun. de 2014

rumo ao amanhã

para D. A. 

a quilômetros de distância
teus olhos me guiam
como se fossem um farol
mas não são
e isso dá um brilho especial
torna tudo mais humano
e possível

7 de jun. de 2014

É a vida
se refazendo
e se desfazendo
na menina de beleza
encantadora
no guri de olhos
espertos 
no senhor que
fechar os olhos
para o sono eterno

há dor e beleza
em tudo

17 de mai. de 2014

Há ausências demais para serem contabilizadas. Eu não me arrisco a fazê-lo. Não é que a vida tenha sido difícil nos últimos meses. Pelo contrário, as coisas vêm dando certo ultimamente. Mas, quando a festa acaba, as pessoas vão embora, eu fico só. Depois de um dia de trabalho, de correr pra cima e pra baixo, falar com um, com outro, falar com muitos ao mesmo tempo, a noite caí, eu estou só. O resultado é o desejado: conquista, alegria, alguns parabéns, mas eu volto para casa não tem com quem comemorar nada, volto a ficar só. Pra quê tudo isso, se acaba sendo várias batalhas solitárias? Na derrota ou glória, não importa, somos eu e eu mesmo. Qualquer esperança de que o cenário possa mudar em breve e alguém se arrisque a me acompanhar em tudo isso acaba resultando em silêncio, ausência, decepção...
E ao me perguntarem: "O que tornaria seu fim de semana melhor?". Me deparo respondendo de forma melancólica, mas espontânea: uma companhia. 

Nunca fui como todos!

Nunca fui como todos 
Nunca tive muitos amigos 
Nunca fui favorita 
Nunca fui o que meus pais queriam 
Nunca tive alguém que amasse 
Mas tive somente a mim 
A minha absoluta verdade 
Meu verdadeiro pensamento 
O meu conforto nas horas de sofrimento 
Não vivo sozinha porque gosto 
E sim porque aprendi a ser só...

Florbela Espanca

21 de abr. de 2014


Na primeira vez que li Adília, estranhei. Na segunda me interessei. Na terceira me encontrei. E vi que ali tinha muito o que descobrir.... Porque Adília é foda!


"Nunca fodi. Mas não me importo de morrer sem ter fodido. Apaixonei-me. E ninguém por quem eu me tenha apaixonado se apaixonou por mim. Acho horrível uma pessoa foder sem estar apaixonada. Acho horrível uma pessoa nunca ter se apaixonado. Acho que é o pior que pode acontecer a uma pessoa. Não é nunca ninguém ter se apaixonado por nós. É tão horrível alguém apaixonar-se por nós e nós não podermos corresponder. As paixões desencontradas são como as cabeças trocadas.
*
Posso morrer porque amei e porque fui amada. Gostei de homens, de mulheres, de velhas (de velhos não), de bebés, de bichos, de plantas, de casas, de filmes, de concertos, de quadros, de teorias, de jogos, de pastéis de nata, de jesuítas, de russos, de hamburguers, de Paris e de Londres.  Nunca fui a Nova York e gostava de ir, mas não me importo de morrer sem ter ido. Também nunca tive um orgasmo, mas posso morrer sem nunca ter tido um orgasmo. Não me arrependo de nada. É claro que Nova York não se compara com um orgasmo. Um orgasmo é muito mais importante.
*
Para foder, nestes tempos que correm, parece que é preciso um escafandro. As pessoas pensam muito em foder. E sofrem muito quando não fodem. Quem não pensa em foder está fodido. Mas as pessoas fodem e não são felizes.
*
O deserto está perto. Sempre. Mas o deserto é fértil.
*
Pateta, patética, peripatética: eu."


Adília Lopes In: Irmã Barata, Irmã Batata (2000).  

19 de abr. de 2014

há tanta cumplicidade na forma como eles se olham
eu observo
no tom da voz com que um chama o outro
eu percebo que há mais que cumplicidade
há momentos compartilhados, histórias divididas entres os dois
tempo conquistado 
juntos
eu observo
o que eu nunca tive
e me pergunto 
por quê?