23 de mar. de 2015

Barulho

para i.


nem a maior de todas as batucadas 
abafa 
o grito do meu peito
a chamar por ti


15 de mar. de 2015

Existe sempre alguma coisa ausente

Caio F.

Paris — Toda vez que chego a Paris tenho um ritual particular. Depois de dormir algumas horas, dou uma espanada no rodenirterceiromundista e vou até Notre-Dame. Acendo vela, rezo, fico olhando a catedral imensa no coração do Ocidente. Sempre penso em Joana d’Arc, heroína dos meus remotos 12 anos; no caminho de Santiago de Compostela, do qual Notre-Dame é o ponto de partida — e em minha mãe, professora de História que, entre tantas coisas mais, me ensinou essa paixão pelo mundo e pelo tempo.
Sempre acontecem coisas quando vou a Notre-Dame. Certa vez, encontrei um conhecido de Porto Alegre que não via pelo menos há 2o anos. Outra, chegando de uma temporada penosa numa Londres congelada e aterrorizada por bombas do IRA, na época da Guerra do Golfo, tropecei numa greve de fome de curdos no jardim em frente. Na mais bonita dessas vezes, eu estava tristíssimo. Há meses não havia sol, ninguém mandava notícias de lugar algum, o dinheiro estava no fim, pessoas que eu considerava amigas tinham sido cruéis e desonestas. Pior que tudo, rondava um sentimento de desorientação. Aquela liberdade e falta de laços tão totais que tornam-se horríveis, e você pode então ir tanto para Botucatu quanto para Java, Budapeste ou Maputo — nada interessa. Viajante sofre muito: é o preço que se paga por querer ver “como um danado”, feito Pessoa. Eu sentia profunda falta de alguma coisa que não sabia o que era. Sabia só que doía, doía. Sem remédio.
Enrolado num capotão da Segunda Guerra, naquela tarde em Notre-Dame rezei, acendi vela, pensei coisas do passado, da fantasia e memória, depois saí a caminhar. Parei numa vitrina cheia de obras do conde Saint-Germain, me perdi pelos bulevares da le dela Cité. Então sentei num banco do Quai de Bourbon, de costas para o Sena, acendi um cigarro e olhei para a casa em frente, no outro lado da rua. Na fachada estragada pelo tempo lia-se numa placa: “II y a toujours quelque choe d’abient qui me tourmente” (Existe sempre alguma coisa ausente que me atormenta) — frase de uma carta escrita por Camilie Claudel a Rodín, em 1886. Daquela casa, dizia a placa, Camille saíra direto para o hospício, onde permaneceu até a morte. Perdida de amor, de talento e de loucura.

Fazia frio, garoava fino sobre o Sena, daquelas garoas tão finas que mal chegam a molhar um cigarro. Copiei a frase numa agenda. E seja lá o que possa significar “ficar bem” dentro desse desconforto inseparável da condição, naquele momento justo e breve — fiquei bem. Tomei um Calvados, entrei numa galeria para ver os desenhos de Egon Schiele enquanto a frase de Camille assentava aos poucos na cabeça. Que algo sempre nos falta — o que chamamos de Deus, o que chamamos de amor, saúde, dinheiro, esperança ou paz. Sentir sede, faz parte. E atormenta.
Como a vida é tecelã imprevisível, e ponto dado aqui vez em quando só vai ser arrematado lá na frente. Três anos depois fui parar em Saint-Nazaire, cidadezinha no estuário do rio Loire, fronteira sul da Bretanha. Lá, escrevi uma novela chamada Bem longe de Marienbad, homenagem mais à canção de Barbara que ao filme de Resnais. Uma tarde saí a caminhar procurando na mente uma epígrafe para o texto. Por “acaso”, fui dar na frente de um centro cultural chamado (oh!) Camille Claudel. Lembrei da agenda antiga, fui remexer papéis. E lá estava aquela frase que eu nem lembrava mais e era, sim, a epígrafe e síntese (quem sabe epitáfio, um dia) não só daquele texto, mas de todos os outros que escrevi até hoje. E do que não escrevi, mas vivi e vivo e viverei.
Pego o metrô, vou conferir. Continua lá, a placa na fachada da casa número 1 do Quai de Bourbon, no mesmo lugar. Quando um dia você vier a Paris, procure. E se não vier, para seu próprio bem guarde este recado: alguma coisa sempre faz falta. Guarde sem dor, embora doa, e em segredo.
O Estado de S. Paulo, 3/4/1994

P.S. Caio e seus ensinamentos-epifanias.

Silêncio

com seu jeito quieto
de sorriso tímido
ele se foi 
deixando aqui o barulho de bombas nucleares
e o caos de um cataclismo íntimo. 

14 de mar. de 2015

.

entre tanto afeto, tanta vontade, tantos sentimentos
você pode encontrar alguém que responda com frieza
.

8 de mar. de 2015

Lance

um lance de dados
seu corpo lançado contra o meu
nossos corpos lançados no mar
um barato de lança perfume. 

meias verdades lançadas ao vento
juras de amor lançadas da sacada
meu sentimento lançado na vala
o seu corpo lançado no mundo

31 de dez. de 2014

Desejos

Amigos, 
Brinde, beijo, bocas,
Carinho, carnaval, conquistas
Dádivas,
Esperança, êxitos 
Força, flores
Graça, gracejo, gelo,
Honestidade,
Inteligência, independência, invenções 
Juventude, 
Love, 
Magia,
Namoro,
Ordem, desordem, orgias,
Paradoxos, proteção,
Quimeras,
Risos,
Saúde, sabedoria, sexo,
Tranquilidade,
União, 
Viagens, viva!,
XXX (pausa)
Zoeira!

Recomeçar sempre!

P.S. Um Feliz 2015 a todos!!! 

Obrigado 2014!

2014 foi um ano de realizações, recomeços, reinvenções. Teve alegria, festa, riso. Mas também sustos, tristezas, decepções. Algumas pessoas passaram e se foram por vontade própria, outras chegaram, ficaram e fizeram o ano acontecer, outras, ainda, se foram por força da natureza, enquanto algumas pessoinhas surgiram para me fazer sorrir. Agradeço os ensinamentos e aprendizados, as conquistas, a saúde, a vida. O saldo é muito, muito positivo. Um brinde a felicidade e força para seguir adiante. 

1 de nov. de 2014

Eu ia te falar que você estava começando a se tornar imprescindível, 
mas, quando notei você já não estava lá. 

19 de out. de 2014

sonho dos poetas

a poeta fala de sonho
o que sonhou no último sábado
isso me atinge em cheio
não tenho mais sonhado durante as noites
nada
beijo morte água voo queda sexo briga dança 
nada disso
breu total 

***

tenho sonhado acordado
com uma voz que desconheço
e que sussurra palavras ininteligíveis 
que me arrepiam
com olhos profundos 
e um sorriso doce
que ainda não reconheço 

***

tenho sonhado acordado
com o aquele cabelo claro
branco de tão loiro
a pele lisa
e clara
Deutsch
com a língua dele
que não compreendo 
com o frio de berlim

***

tenho sonhado acordado
com a voz grave
da cantora cubana
"logro decirte que te quiero, 
que tu eres todo lo que anhelo"
com ele que sorri 
e confessa
"it isn't portuguese
I can't undestand"

***

tenho sonhado com o sol de havana
a neve de berlim
a viagem
a aprovação
com a forma única
na qual me disse
fi-ca-mos

é real?